Sociólogas e Sociólogos do Futuro

Publicado em 5 de novembro de 2021

Por Tânia Guimarães Ribeiro (UFPA)
Daniela Ribeiro de Oliveira (UFPA)
Patrícia da Silva Santos (UFPA) e
Edila Arnaud Moura (UFPA) 

Este post fecha a série de textos sobre a atividade Sociólogos e Sociólogas do Futuro no 20o Congresso Brasileiro de Sociologia. Nele as organizadoras da atividade fazem um balanço da atividade e refletem sobre a importância deste espaço para os estudantes em formação e para o artesanato intelectual em geral.

Você já se perguntou: quando comecei a pensar e agir como uma socióloga ou sociólogo?

Essa pergunta já foi feita e respondida por vários sociólogos e sociólogas. E sua resposta quase nunca coincide somente com a entrada na academia ou com o recebimento do tão almejado diploma. Florestan Fernandes recorre à sua memória da infância vivida nas ruas de São Paulo, para nos explicar que sua “aprendizagem sociológica”[1] começara aí. Desde os seis anos de idade trabalhava como engraxate para ajudar a mãe a sustentar a casa, passando por todas as asperezas que se pode imaginar. Essa é uma das respostas possíveis àquela indagação inicial, pois são diversas as experiências concretas que motivam os/as futuros/as sociólogos/as.

E, podemos concordar, que é no espaço acadêmico que o ofício do sociólogo toma corpo, buscando-se garantir um espaço democrático, diverso e aberto aos debates e mudanças. Pois é aí que a imaginação sociológica floresce, colaborando com “ideias para adiar o fim do mundo”[2], delineando o ofício de sociólogo/a, formando o/a professor/a e pesquisador/a; fornecendo instrumentos técnico-científicos para a assessoria aos movimentos sociais e organizações sociais; constituindo formas de intervenção para a atividade no setor público.

Foi nesse clima que mais de 500 sociólogos com vários níveis de formação construíram o que, sob grande entusiasmo, chamamos informalmente de Mini Congresso dos Sociólogos e Sociólogas do Futuro (SSF). Entre os dias 13 e 16 de julho de 2021 nos reunimos, virtualmente, na cidade de Belém do Pará, como parte da programação do 20° Congresso de Sociologia da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). Importante destacar que mantendo o mesmo espírito do SSF nos Congressos anteriores, o SSF foi constituído como um espaço para acolher os trabalhos de autores e autoras, graduandos e mestrandos nas áreas de Ciências Sociais, ou seja, aqueles que estão iniciando sua trajetória acadêmica como pesquisadores/as. Neste Congresso de 2021, o Comitê responsável foi composto por professoras do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), que são as autoras desse texto.

Dos 361 trabalhos inscritos, o Comitê SSF formado por 15 pesquisadores e pesquisadoras de várias universidades do país[2], selecionou 247 trabalhos[3] que integraram as 46 salas virtuais do congresso. A aplicação do critério de paridade regional na seleção dos resumos garantiu a ampliação da representatividade acadêmica e reuniu autores e autoras das diversas regiões do país: Centro-Oeste (13), Nordeste (45), Norte (31), Sudeste (116), Sul (40), e mais dois trabalhos de instituições internacionais.

A experiência do SSF, além dos autores e autoras presentes, contou com a parceria de 46 coordenadores/ras das salas que comentaram os trabalhos apresentados, e com o apoio de 20 monitoras/res da Faculdade de Ciências Sociais e do PPGSA (UFPA) e da equipe técnica que garantiu o funcionamento de todas as salas, ao longo do congresso. Orientadores e orientadoras, bem como colegas e familiares dos Sociólogos e Sociólogas do Futuro, também fizeram parte desta rede.

As exposições foram organizadas a partir de grandes eixos temáticos como Teoria Social, Gênero, Meio Ambiente Rural e Urbano, Estratificação Social e Desigualdade, Cultura e Educação, Desenvolvimento e Trabalho. Foram analisados múltiplos objetos de estudos, abordagens teórico-metodológicas e experiências em diferentes espaços. Por essas salas virtuais passaram 541 pessoas, uma média de 131 sociólogos e sociólogas presentes por dia de evento. Tivemos salas com cerca de 30 pessoas debatendo com os futuros pesquisadores e pesquisadoras.

Não são só números! Foi o que vivenciamos nesses quatro dias de SSF. A importância de estar nesse espaço para os/as estudantes vai muito além da simples participação num congresso científico. Envolve, também, todo um ritual de elaboração do resumo científico, do tempo de espera pelos resultados de aceite, os preparativos da comunicação, finalizando com o dia da exposição dos resultados da pesquisa. Em 2021, em especial, a toda essa preparação juntou-se mais um desafio: elaborar um vídeo[4] em substituição aos pôsteres no formato de banner, apresentados em Congressos anteriores. Esse desafio criado pelas circunstâncias da pandemia foi uma oportunidade de usarmos a imaginação sociológica e tecnológica para vencer os limites decorrentes do distanciamento social impostos pela crise sanitária da Covid-19, viabilizando o nosso encontro. Nessa rede que se formou não faltou espaço para manifestarmos nossos pesares aos sofrimentos impostos pela insegurança sanitária e pelas negligências social e econômica as quais estão sendo relegada a população brasileira.

Os 171 trabalhos apresentados teceram diversas conexões temáticas: questões raciais, gênero e juventude; os movimentos sociais e as políticas públicas; a questão ambiental e as lutas territoriais; sociabilidade digital, consumo, insegurança democrática; informalidade do trabalho, imigração e os impactos decorrentes da Pandemia Covid-19; desigualdades de gênero e trabalho; educação, ensino de sociologia e a docência; dentre vários outros temas. A Amazônia e sua diversidade de temas estiveram bem representadas, envolvendo temáticas rurais e urbanas, compondo o Circuito Amazônico [5].

A temática de Gênero foi aquela que recebeu mais trabalhos e possibilitou uma diversidade de análises entrelaçadas a outros temas, como a questão racial, LGBTQI+, a violência, a juventude, o cuidado, as manifestações culturais, compondo também o Circuito Lilás[6]. Em um cenário político autoritário como o que vivemos, no qual as desigualdades de gênero e sexualidade se intensificam, é significativo observar que a sociologia se apresenta como trincheira feminista de resistência por meio do conhecimento. Também é importante sinalizar que dos trabalhos apresentados, 130 mulheres autoras e coautoras assinaram os textos. Uma relação entre temática e representação que é alvissareira para pensarmos a ampliação de um espaço mais inclusivo para as mulheres no fazer ciência. E um bom passo foi dado durante o SSF, ainda mais se considerarmos que os 5 trabalhos selecionados para a premiação e menção honrosa do SSF, foram todos de autoras mulheres [7].

Vale registrar que o artesanato sociológico que exercitamos nesses 4 dias, além da disciplina que se faz necessária, não pode deixar de fora a emoção. Afinal, é o momento em que o estudante vai expor os resultados do seu trabalho. Mas ele não está “sozinho”. Porque, como fruto de uma jornada coletiva, o seu trabalho é sustentado por uma teia que necessita ser fortalecida a cada dia. Incluindo os investimentos nas universidades que propiciem a ampliação de vagas e a aquisição de recursos materiais para a pesquisa, ensino e extensão. Essas atividades estão imersas no cotidiano da sala de aula, das orientações e nas atividades de campo. Todo esse circuito sustenta o campo da educação, necessitando-se garantir seu caráter público e de qualidade.

O Sociólogos e Sociólogas do Futuro deixou algumas marcas: foi o primeiro realizado na região norte do país, mais precisamente em Belém do Pará, no mesmo ano em que a Sociedade Brasileira de Sociologia comemora seus 70 anos de existência; foi a primeira experiência de um congresso realizado de forma virtual. Se nos trouxe dificuldades, nos deixou também aprendizados. Queríamos tanto que o país e o mundo provassem dessa terrinha que, em sua diversidade, tem muito a mostrar além da floresta, rios sinuosos dos cartões postais e suas comidas saborosas. Em sua singularidade, é um campo a céu aberto para a imaginação sociológica. Mas graças à tecnologia e ao empenho de toda a Comissão Organizadora da SBS e, em particular, do Comitê do SSF, pudemos servir de elo entre Belém e o mundo, entre os sociólogos do passado, do presente e do futuro.

Em breve, em 2023, o Congresso da SBS vai acontecer aqui em Belém do Pará de novo, mas de forma presencial, esperançamos! Até já!

[1] FERNANDES, Florestan. Ciências Sociais: na ótica do intelectual militante. Estudos Avançados. 1994, v. 8, n. 22, pp. 123-138.

[2] Sobre a Comissão Organizadora do SSF você pode acessar aqui: https://www.sbs2021.sbsociologia.com.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=512

[3] Neste link você pode acessar a todos os resumos dos SSF aceitos no SSF do 20º Congresso de Sociologia Brasileira. https://www.sbs2021.sbsociologia.com.br/modalidadetrabalho/public/sociologosdofuturo

[4] Aproveitem e passem por lá no canal da SBS TV para assistir aos vídeos que fizeram parte do SSF. O link está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=3eCSfpilvJI&list=PLS-uCD54HvZ7-6A6ZmdA452

[5] O Circuito Amazônico de Sociologia foi idealizado para o 20o. Congresso Brasileiro de Sociologia considerando o relevante volume de trabalhos de pesquisa e de reflexões produzido no campo da Sociologia e das Ciências Sociais brasileiras sobre a região. Destacam-se questões que envolvem as sociedades amazônicas, as formas de intervenção do Estado com políticas desenvolvimentistas, os processos históricos de sua formação social e econômica, a violência da transformação do território, a colonização da natureza e as emergências políticas de atores sociais que formulam pensamentos críticos a partir de sua realidade contextualizada socialmente, na perspectiva de gênero, de classe e de etnia. Você pode conferir os trabalhos reunidos no Circuito acessando aqui: https://www.sbs2021.sbsociologia.com.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=978

[6] O Circuito Lilás, que teve sua primeira edição no 19º Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado em 2019, na UFSC, tem o objetivo de ressaltar a presença das temáticas gênero e sexualidades neste 20º Congresso, a partir de um levantamento de todas as atividades previstas no site do evento, ressaltando temas como: mulheres, feminismos, gênero, masculinidades, violências de gênero, violência sexual, sexualidades, interseccionalidades, homossexualidades, transexualidades, LGBT, entre outras. Acesse aqui o link para ver todos os trabalhos compilados:  https://www.sbs2021.sbsociologia.com.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=976

[7] A cerimônia de encerramento e, na sequência, a cerimônia com a entrega da premiação dos prêmios para o SSF 2021 podem ser acessadas aqui: https://www.youtube.com/watch?v=2TJNiJbGqmg&list=PLS-uCD54HvZ7-6A6ZmdA452bfjFolApSM&index=10

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Hoje, às 19h, no canal da SBS no YouTube, temos mais uma sessão dos Seminários Internacionais de Pesquisa Hip Hop em Trânsito.O tema da mesa de hoje é "Hip-hop: direito à educação e à memória" e conta com a participação de Martha Diaz (Hip-Hop center education), Profa Ana Lucia Silva Souza (UFBA), e mediação de Cristiane Dias (USP). O Seminário Internacional de Pesquisa Hip Hop em Trânsito | “Hip-Hop: direito à educação e à memória” é promovido em parceria com o Centro de Estudos e Migrações Internacionais (CEMI-UNICAMP), o Programa de Pós-graduaçãp em Sociologia da UEL e o GT 6 Formas e Experiências Culturais Periféricas da Sociedade Brasileira de Sociologia. Não perca! ... See MoreSee Less
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Seminário Internacional: “Hip-Hop: direito à educação e à memória” da linha de pesquisa “Hip-hop em Trânsito” do Centro de Estudos e Migrações Internacionais (CEMI-UNICAMP). Seminário promovido pelo CEMI, PPGSOC da UEL e o GT 6 Formas e Experiências Culturais Periféricas da Sociedade Brasileira de Sociologia. Estes encontros buscam apresentar o campo de pesquisas sobre Hip-hop em níveis nacional e internacional.O último seminário do ano acontecerá no dia 02/12/2021, às 19h, com a presença de Martha Diaz (Hip-Hop center education), Profa Ana Lucia Silva Souza (UFBA), com mediação de Cristiane Dias (USP). Organização: Jaqueline Santos (Cemi) e Daniela Vieira (UEL). ... See MoreSee Less
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NOTA DE PESARA SBS se junta à Universidade Federal do Paraná e comunica com pesar o falecimento do professor Pedro Rodolfo Bodê de Moraes do Setor de Ciências Humanas, Departamento de Ciências Sociais da UFPR, no último sábado, 27 de novembro. Pedro Bodê, muito querido pelos colegas e alunos, concluiu estágio pós-doutoral (IESP-UERJ), doutor em sociologia (IUPERJ), mestre em antropologia social (PPGAS/MN/UFRJ) e graduado em ciências sociais (UFF). Era professor adjunto no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Direito, ambos da Universidade Federal do Paraná. Teve importante participação como coordenador da Comissão Estadual da Verdade do Paraná e membro do Fórum Paranaense da Verdade, Memória e Justiça. Atuou ainda, diretamente, junto à OAB/PR em temas vinculados ao enfrentamento de violência contra a mulher e da criança e adolescente.Com forte contribuição acadêmica e compromisso com a democracia, Pedro Bodê é referência em estudos e atuação na área da segurança pública. Deixa um legado na área de Sociologia e Antropologia, principalmente nos temas sobre controle social, violência, sistema penitenciário, juventude e criminalização.A SBS, junto à comunidade da UFPR, lamenta a morte do professor e presta os mais sinceros sentimentos aos familiares, colegas e amigos. ... See MoreSee Less
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Panorama SBS | Neste post, Aline Pires discute como a categoria desalento tem sido mobilizada para descrever as novas dinâmicas do mundo do trabalho e como elas atingem de modo específico e intenso os mais jovens.
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