Paulo Henrique Martins

Por Amurabi de Oliveira (UFSC)

<span class=”dropcap”>P</span>rofessor Paulo Henrique Novaes Martins de Albuquerque, mais conhecido como Paulo Henrique Martins, nasceu em Recife em 4 de agosto de 1951. Sua família era vinculada à indústria canavieira, seu avô, Antônio Novaes Filho (1898-1978), foi senador da República e Ministro da Agricultura. Tais raízes o levou, primeiramente, a ingressar em 1971 no curso de Direito na Universidade Federal de Pernambuco, seguindo uma trajetória esperada para as elites econômicas e culturais da região; e, o levou ainda a pesquisar o universo do açúcar. Seu percurso até a sociologia passa por uma especialização em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) entre 1976 e 1977.

Em 1977 seguiu para a França para prosseguir com seus estudos na sociologia, contando naquele momento com duas cartas, de Manuel Correia de Andrade (1922-2007) e Cícero Dias (1907-2003), este último foi quem o apresentou ao Colégio Cooperativo na Universidade de Paris I, onde ele viria a realizar seus estudos de mestrado e doutorado. Em 1979 defendeu a dissertação “Estado, Capitalismo e Estrutura de Poder no Brasil até 1930: o caso de Pernambuco” orientada por Yves Goussault (1923-2003), que também o orientou no Troisième cycle onde defendeu a tese “Estado e Questão Regional no Brasil: uma reflexão a partir do caso do Nordeste Açucareiro” em 1980. Voltando para o Brasil atuou como professor visitante entre 1981 e 1985 no Departamento de Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), trabalhando junto Manuel Correa de Andrade, que o havia estimulado a estudar em Paris. Após esse período atuou na então Fundação de Ensino Superior de Pernambuco, hoje Universidade de Pernambuco (UPE), onde permaneceu até 1988 quando regressou para a França para realizar seu curso de doutorado – uma vez que no Brasil havia dificuldades para se reconhecer o Troisième cycle como curso doutoral – , defendendo em 1991 a tese “Profetismo Econômico e Mito do Desenvolvimentismo na América Latina: o caso do Brasil”, orientado por Maxime Haubert.

Na sua nova estadia na França, Paulo Henrique entrou em contato com Alain Caillé, que havia fundado em 1981 o Mouvement anti-utilitariste dans les sciences sociales (M.A.U.S.S.), é também nesse momento que passou a frequentar as aulas de Cornelius Castoriádis (1922-1997), o que teve um significativo impacto sobre seus próximos trabalhos. Ao regressar para o Brasil atuou como professor visitante na UFPE a partir de 1992. Em 1994 foi aprovado no concurso público para o Departamento de Ciências Sociais da UFPE onde atuou até 2017 quando se aposentou continuando, porém, a atuar como professor no Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Seus estudos e pesquisas sobre a crítica do desenvolvimentismo o levaram a ampliar seu interesse pelo tema do debate público no Brasil, em particular aqueles da sociologia da saúde, que lhe pareceu como sendo fundamental para entender as exigências para fundação da cidadania como direito humano e político.

Paulo Henrique Martins integrou, portanto, a primeira geração de professores a lecionar em um curso de doutorado em Sociologia no Nordeste[1]. É entre o final dos anos de 1990 e início dos anos 2000 que ele passa a ser reconhecido como um dos principais difusores da teoria da dádiva no Brasil, organizando importantes coletâneas sobre o tema como “A Dádiva entre os modernos: discussão sobre os fundamentos e as regras do social” (2002) e “Polifonia do dom” (2006). A crítica à perspectiva utilitarista se faz presente ainda em outros trabalhos, como “Contra a desumanização da medicina: crítica sociológica das práticas médicas modernas” (2003), “A nova ordem social: perspectivas da solidariedade contemporânea” (2004).

A partir dos anos 2000 acelera-se também sua aproximação com uma reflexão “desde” e “sobre” a América Latina que já tinha despertado seu interesse quando escrevia sua tese de doutorado nos anos 1990. Seu interesse de articular sua experiência com a crítica antiutilitarista europeia com a crítica anticolonial latino-americana o levou a se aproximar do debate sobre a colonialidade na região. Assim, foi convidado para ser um dos coordenadores do Grupo de Trabalho sobre Pensamento Latino-Americano no Encontro da Associação Latino Americana de Sociologia (ALAS), em Porto Alegre(2005), foi eleito diretor da Associação no encontro de Guadalajara (2007), eleito vice-presidente em Buenos Aires (2009-2011) e presidente (2011-2013), tendo sido o organizador geral do 27º Congresso, ocorrido em Recife em 2011. Neste mesmo ano fundou a Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PosColoniais (REALIS), que se articula a partir de uma ampla rede de colaboradores da América Latina e de outras regiões, tendo um papel pioneiro nessa discussão no Brasil, tendo fundado ainda o Instituto de Estudos da América Latina em 2014. Fui seu aluno em um dos primeiros cursos que ofereceu na pós-graduação sobre Sociologia da América Latina. De fato, o acesso às leituras de autores latino-americanos ainda era – e me parece que ainda é – rara na formação sociológica pós-graduada no Brasil, e certamente o professor Paulo Henrique desenvolveu um papel pioneiro na introdução desse debate. Algumas publicações relevantes de sua autoria para este debate são os livros “La decolonialidad de América Latina y la heteretopía de una comunidad de destino solidária” (2012) e “Teoria Crítica da Colonialidade” (2019). Vale igualmente lembrar sua participação na coletânea intitulada “América Latina em Perspectiva” que organizou com Rogério Medeiros e que reúne alguns dos principais textos discutidos no congresso Pré-ALAS realizado no Recife (2008); a coletânea “Fronteiras Abertas da América Latina” (2019) que organizou com Cibele Rodrigue, reunindo principais contribuições do congresso ALAS de Recife de 2011; sua participação no livro “El pensamiento latinoamericano: diálogos en ALAS; Sociedad y Sociología” (2015) organizado pelos ex-presidentes da Associação; sua participação na organização da coletânea “Encrucijadas abiertas. América Latina y el Caribe. Sociedad y Pensamiento Crítico Abya Yala” (2018) em parceria com A. Bialakowski, N. Garita, M. Arnold-Chatalifaud e J. Preciado.

Paulo Henrique Martins Além de suas contribuições decisivas no desenvolvimento da sociologia no Brasil e na América Latina atuou igualmente como vice-presidente da Associação M.A.U.S.S., na França, foi membro da diretoria da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). Atuou também como membro do comitê de avaliação de Sociologia da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) e do comitê de assessoramento da área de Ciências Sociais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como representante da área de Sociologia.

Atualmente ele é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da UFPE, pesquisador nível 1B do CNPq, tendo realizado estágios pós-doutorais na Universidade de Paris X-Nanterre, PARIS X, França, e na London School of Economics and Political Science, Reino Unido. Recebeu em 2019 o prêmio Florestan Fernandes da SBS em reconhecimento por sua trajetória e por sua contribuição à sociologia brasileira.

Sugestões de obra do autor

MARTINS, Paulo Henrique (Org.). A Dádiva entre os modernos: discussão sobre os fundamentos e as regras do social. Petrópolis: Vozes, 2002.

MARTINS, Paulo Henrique. Contra a desumanização da medicina: crítica sociológica das práticas médicas modernas. Petrópolis: Vozes, 2003.

MARTINS, Paulo Henrique; CAMPOS, R. B. C. (Org.) . Polifonia do dom. Recife: UFPE, 2006.

MARTINS, Paulo Henrique. La decolonialidad de América Latina y la heteretopía de una comunidad de destino solidária. Buenos Aires: Ediciones CICCUS – Estudios Sociológicos Editora, 2012.

MARTINS, Paulo Henrique. O ensaio sobre o dom de Marcel Mauss: um texto pioneiro da crítica decolonial. Sociologias, v. 16, n. 36, p. 20-50, 2014.

MARTINS, Paulo Henrique; GUYER, M. G. (Org.) ; KOHN, C. B. W. (Org.) . Imaginarios sociales y memorias: itinerarios de América Latina. Buenos Aires: Teseo/ALAS/CLACSO, 2019.

MARTINS, Paulo Henrique. Teoria Crítica da Colonialidade. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades, 2019.

MARTINS, Paulo Henrique. Sociologia na América Latina: giros epistemológicos e epistêmicos. Sociedade e Estado, v. 34, n. 3, p. 689-718, 2019.

Sobre o autor

BARROS, Flávia Lessa. Entrevista com Paulo Henrique Martins. REALIS, v.1, n.1, p. 166-192, 2011.

TAKEUTI, Norma. Entrevista. Itinerário de descolonialidade de uma prática acadêmica: Revista Cronos, v. 17, p. 152-180, 2016

AQUINO, Jânia Perla Diógenes de; LIMA, Mariana Mont’Alverne Barreto. Trajetória de um sociólogo entre os mundos da província e da cosmópolis: entrevista com Paulo Henrique Martins. Revista de Ciências Sociais, v. 50, n. 3, p. 375-420, 2019.

________________________________________
[1] O primeiro curso de doutorado em Sociologia foi criado na Universidade Federal do Ceará em 1994, logo depois na UFPE em 1995, e em 1999 na Universidade Federal da Paraíba. Também foram criados os doutorados em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia em 1999 e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2000.