Maria Stela Grossi Porto

Por Ana Luisa Fayet Sallas (UFPR)

Eleita a primeira mulher presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (2003-2005), Maria Stela Grossi Porto, tem sua trajetória construída intimamente associada a essa instituição científica – sua instituição “de coração”, segundo suas próprias palavras. Talvez esse vínculo possa ser medido ou vislumbrado quando olhamos para ele como mônada, como janelas que permitem o vislumbre de uma infinidade de linhas, objetos, temas e questões que vêm mobilizando o interesse de uma vida: de socióloga de ofício, de pesquisadora, de docente e também de trabalhadora na construção institucional à qual vem se dedicando de corpo e alma.

Nascida em Ponte Nova (MG) em 26/02/1945, junto com sua irmã gêmea univitelina Maria das Graças Grossi (1945-1994) seguiram unidas também pelos caminhos da sociologia. O pai era de uma família de migrantes italianos calabreses, havia estudado até o científico e era funcionário do Estado que atuava na coleta de impostos; a mãe de família de origem portuguesa que vivia no interior e era professora primária, com especialização em Biblioteconomia, encantada com os livros e com a escrita de poesias.

Telinha (como a chamamos carinhosamente) passou boa parte de sua infância e juventude em Belo Horizonte. Estudou no Colégio Pio XII, escola tradicional católica de freiras salesianas, onde fez do primário até o normal. Nos conta que era excelente em termos de formação acadêmica e ao mesmo tempo extremamente conservadora com relação à questão da moral e dos costumes (2018, p.20). Mas foi justamente nesse espaço que ela descobriu, aos 17 anos, a sua vocação e a escolha de um caminho científico na sociologia. Em que pesem as resistências de seu pai, ingressam, ela e a irmã, na Faculdade de Ciências Econômicas (FACE) da UFMG em 1963, no curso de Sociologia e Política. Nesse curso conheceu seu companheiro de vida, Sérgio Porto com quem se casou (1964) e teve três filhos: Sergio, André e Luís Guilherme, todos nascidos em Belo Horizonte e uma filha Daniela, nascida em Brasília, com Síndrome de Down. O casamento e a maternidade fizeram com que sua etapa de formação na graduação fosse estendida do começo em Minas Gerais para sua conclusão na Universidade de Brasília (1976) para onde migraram em meados dos anos 70. Iniciou seu mestrado na Sociologia na UnB e mais uma vez a família se colocou em movimento, desta vez para acompanhar Sérgio que estava iniciando seu doutorado em Comunicação em Montréal, no Canadá.

Na Universidade de Montréal, Telinha fez o mestrado (1979) e o doutorado (1987) tendo por orientador Mohamed Sfia. Seu mestrado foi sobre o mercado de trabalho informal urbano no processo de desenvolvimento do capitalismo, marcando assim a necessidade de reflexão para além das dualidades estabelecidas entre “desenvolvimento” e “subdesenvolvimento”. Em seu doutorado mudou o foco – procurando a compreensão da relação entre o capitalismo e a pequena produção familiar no Brasil; Diante de um processo de intensas transformações no campo, procurou situar o lugar ocupado por essa produção familiar num contexto de modernização da agricultura brasileira no período.

Através de seu caminho de formação teórica e acadêmica, já no exercício pleno do ofício de socióloga, atuando como professora concursada no departamento de sociologia da UnB (1987) vai gradativamente convertendo seus interesses de pesquisa, que se deslocam para a questão da violência, da segurança pública e dos direitos humanos. Foi na sociologia do mundo rural, que emergiram suas reflexões conceituais no estudo sobre a violência, aprofundadas com a realização de seu pós-doutorado no Centre d’Etudes de la Vie Politique Française (CEVIPOF), Paris, quando acompanhou os seminários de Michel Wieviorka, com quem estabeleceu uma relação de afinidade teórica na compreensão da violência como fenômeno sociológico, procurando interpretar de forma mais sistemática o lugar do sujeito e de sua condição de ator no mundo social. Procurou pensar se era possível uma sociologia da violência e em que medida. Assim, buscou trabalhar a relação objetividade/subjetividade da violência, visando a avançar teoricamente em suas reflexões. Desse seu movimento teórico e epistemológico inicia uma reflexão refinada e inovadora para pensar a violência a partir das representações sociais, inspirada pelas contribuições de Serge Moscovici e Denise Jodelet.

Da imagem da mônada que evocamos no início temos, ao longo de sua trajetória a sua inserção no campo da sociologia da violência, tendo sido coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência e Segurança (NEVIS/UnB), no qual atua ainda hoje, associando-se a uma constelação de pesquisadores como Luiz Antônio Machado da Silva, que formulou a categoria de “sociabilidade violenta” para compreender o fenômeno no Brasil. Participou do INCT ‘Violência, democracia e segurança cidadã’, juntamente com Sérgio Adorno (USP), seu coordenador, José Vicente Tavares (URGS), César Barreira (UFC), Renato Sérgio de Lima (FBSP) e Michel Misse (UFRJ), dentre outros que em meados dos anos 90, criaram Grupos e Núcleos de Pesquisa sobre a Violência, atraindo toda uma nova geração que se debruçou sobre a compreensão da temática, em suas múltiplas faces.

Professora titular em 2011, e professora Emérita em 2017 pela Universidade de Brasília, mesmo ano em que foi a presidente do 18º Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia que novamente se realizava nessa cidade, depois de 30 anos do congresso de retomada da Sociedade Brasileira de Sociologia, ocorrido em Brasília em 1987 sob a presidência de Gabriel Cohn (USP), datando dessa época seu envolvimento de coração com a SBS.

Para além de sua atuação na construção de um campo de estudos como é o da sociologia da violência, Telinha tem atuado de forma significativa nos espaços de produção e troca acadêmicas extra muros da universidade, como a Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); e na Internacional Sociological Association (ISA) onde foi vice-presidente do RC 29-Research Committee on Deviance and Social Control (2006-2010). Da mesma forma, teve uma atuação importante junto a agências de Ciência e Tecnologia como o CNPq e a CAPES, atuando em Comitês de Área de Sociologia em ambas instituições.

Temos de sua presença iluminadora na Sociologia Brasileira três aspectos que valem ser destacados: uma visão crítica dos “ismos” e da visão redutora e meramente instrumental da ciência sociológica, a necessidade constante do avanço teórico em relação direta com o mundo social, e finalmente a necessidade de ler os clássicos, com um olhar curioso e criativo para perceber o sentido profundo de suas contribuições para a compreensão do mundo contemporâneo.

Sugestões de obras da autora:

PORTO, Maria Stela Grossi (Org.) Sociedade e Estado. 02. ed. Brasília: Editora UnB-, 1995. v. X. 260p

PORTO, Maria Stela Grossi (Org.) Politizando a Tecnologia no Campo Brasileiro– Dimensões e Olhares. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.

PORTO, Maria Stela Grossi. Sociologia da Violência do Conceito às Representações Sociais. 1a.. ed. Brasília: Ed. Francis/Verbena, 2010. v. 1. 336p

PORTO, Maria Stela Grossi. Violência, Democracia e Segurança Cidadã: o caso das polícias no Distrito Federal. 1. ed. Brasília: Verbena, 2017. v. 1. 224p

PORTO, Maria Stela Grossi. Repensando Travessias – o Fazer Sociológico. Curitiba: Appris Editora, 2018.

Sobre a autora:

LIMA, Renato S.; RATTON, José L. (Org.). As Ciências Sociais e os pioneiros nos estudos sobre crime, violência e direitos humanos no Brasil. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública; Urbania; ANPOCS, 2011.

PORTO, Maria Stela Grossi. Maria Stela Grossi Porto (depoimento, 2018). Rio de Janeiro, CPDOC/Fundação Getulio Vargas (FGV), (2h 5min). Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/cientistassociais/mariastelagrossi

FACHINETTO, Rochele F. et al. As linhagens de descendência acadêmica dos pesquisadores “pioneiros” nos estudos sobre violência, crime e justiça criminal no Brasil (1970-2018). BIB, São Paulo, n. 91, p. 1-39, 2020.