CP20 – Pensamento Social

Coordenação

Antonio Brasil Junior (UFRJ)
Alexandro Trindade (UFPR)

Desde 2003, o GT de Pensamento Social no Brasil da Sociedade Brasileira de Sociologia vem se dedicando à investigação dos grandes temas relacionados à sociedade brasileira, bem como às interações reflexivas entre ideias, instituições, intelectuais e sociedade, abarcando a produção especificamente sociológica, mas também variadas linguagens artísticas, culturais e políticas. Desse modo, seu escopo compreende pesquisas e análise de processos sociais de produção, aquisição, transmissão e recepção das ideias e/ou conhecimento por parte de grupos, círculos ou redes, assim como o estudo dos efeitos sociais e políticos das ideias na rotinização ou na deslegitimação de práticas sociais e instituições.
O Grupo de Trabalho em Pensamento Social no Brasil, agora Comitê de Pesquisa, tem, junto com a Sociedade Brasileira de Sociologia, contribuído para construir duas frentes fundamentais associadas. Em primeiro lugar, para a consolidação de um núcleo permanente de pesquisadores em instituições de reconhecida projeção no campo da sociologia – conforme Gráfico 1 abaixo – dentre outras; bem como para o fortalecimento de núcleos emergentes em diferentes instituições do país. Em segundo lugar, a atuação do GT tem concorrido para a consolidação da própria área de pesquisa homônima, de Pensamento Social. Área que vem atingindo, desde a década de 1990, amplas condições de consolidação no âmbito das ciências sociais praticadas no Brasil. É isso que indicam diversos balanços realizados sobre a sua produção contemporânea (Miceli, 1999; Oliveira, 1999; Bastos, 2002; Botelho & Bastos, 2010; Botelho, 2012; Brasil Jr., Jackson, Paiva, 2020) e também como área de concentração temática no interior de instituições de pesquisa e ensino (Bastos, 2003; Meucci & Carvalho, 2018). Há que se ressaltar ainda as iniciativas recentes de divulgação científica das interpretações do Brasil, objeto por excelência da área de pesquisa, uma vez que o diálogo com o público não especializado costuma ser um dos sinais mais significativos da maturidade de um domínio de conhecimento (Botelho & Schwarcz, 2009).
Ao longo de sua trajetória, o GT tem buscado diversificar e ampliar as temáticas, abordagens teóricas e metodologias das pesquisas discutidas no grupo, uma forma de ao mesmo tempo acompanhar e colocar questões à dinâmica mais ampla de inovação científica da área de Pensamento Social e, de forma geral, das ciências sociais no Brasil. Ao longo desses anos foram 229 pesquisadores entre comunicadores, debatedores e coordenadores. Na tabela abaixo, as células em preto sinalizam a filiação institucional dos participantes do GT de Pensamento Social no Brasil desde 2003, totalizando 83 instituições. É possível acompanhar, de cima para baixo, a crescente diversificação institucional e regional ao longo do tempo.

A partir desses dados, torna-se visível o esforço, em conjunção com as diretrizes da SBS, de diversificar o escopo da produção, de pesquisadores e instituições acolhidas no GT. Especificamente em relação aos temas, observa-se como a área de Pensamento Social no Brasil tem deslocado o seu objeto preferencial – as várias modalidades de interpretação da sociedade brasileira, disponíveis em ensaios, monografias científicas e nas artes em geral – para visadas comparadas ou mesmo transnacionais, o que também se revela no fortalecimento de redes entre pesquisadores situados no Brasil e na América Latina, Estados Unidos e Europa (Maia, 2009; Chaguri & Medeiros, 2018). Para além da percepção mais convencional de que o pensamento social no Brasil estaria ligado somente a temas autorreferidos à sociedade brasileira, como a “identidade nacional” e seus correlatos, vem emergindo, como agenda de pesquisa da área, análises de processos sociais de alcance global, embora sempre especificados nacional ou regionalmente, dadas as diferentes trajetórias históricas.

Ao lado de temas mais tradicionais, como o papel dos intelectuais e os estilos de pensamento (conservador, liberal e marxista, por exemplo), também tem ganhado força questões como a regional, racial e de gênero, balançando visões estabelecidas sobre o cânone de intérpretes e interpretações do Brasil e do próprio alcance das visões de sociedade que produções sociais, culturais e políticas dos mais diversos tipos trazem implícita ou explicitamente. Nesse sentido, a área tem se mostrado capaz de interpelar criativamente temas muito contemporâneos das ciências sociais como, por exemplo, a do conservadorismo, nova direita e o impacto de novas mídias e redes sociais na sociabilidade contemporânea.

Metodologicamente, o estudo das ideias e interpretações do Brasil vem ganhando novos aportes que contribuem para recolocar a relação entre texto e contexto, um dos tópicos mais presentes em suas discussões. Em primeiro lugar, é significativo que a diversidade temática a que já aludimos sirva também para demonstrar que diferentes pontos de vista convivem em um mesmo contexto de forma conflituosa ou complementar. Mais do que disputas de narrativas, o que essa tendência revela é a dinâmica reflexiva das ideias, em que estas produzem e são produzidas por práticas sociais de indivíduos, grupos e instituições. Em segundo lugar, a própria definição do que seja um “texto” é resignificada na medida em que modalidades distintas de produção cultural e de seus suportes (imagens, mídias, redes sociais, por exemplo) são tratadas pelos significados e visões de sociedade que trazem embutidos.

Nesse sentido, alguns desafios metodológicos da área de Pensamento Social no Brasil devem ser ressaltados. Constata-se a crescente preocupação em explorar perspectivas comparadas, algo que não se limita ao confronto entre diferentes abordagens de análise, mas envolve também e cada vez mais, o cotejo de autores e obras de um mesmo período histórico ou de períodos históricos diferentes, de distintas modalidades de imaginação e produção intelectual e/ou artística, de diferentes tradições, movimentos e projetos intelectuais e artísticos, de contextos regionais e nacionais, de questões substantivas e analíticas. As perspectivas comparadas vêm abrindo, assim, novas frentes de reflexão e de pesquisa, bem como novos desafios teórico-metodológicos suscitados pela articulação e tensão entre as diversas formas de conceber e apreender o próprio pensamento social.

Outro desafio metodológico é posto pela diversidade de fontes empíricas cobertas pela área de Pensamento Social no Brasil. Assiste-se atualmente a uma importante ampliação de dados de pesquisa, indo desde estudos das obras de autores e autoras clássicos, renovados pelas questões postas pelo debate contemporâneo, até a investigação de arquivos institucionais; interseções com estudos formais de música, teatro, poesia e artes, de forma geral; além da interlocução com o campo do chamado “big data” (grande volume de dados), que vem impondo novas formas de se observar a produção, circulação e recepção de textos e ideias através da utilização de softwares computacionais. Especificamente sobre essa última frente, a Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) promoveu o “V Seminário BVPS: Pensamento social e o desafio das metodologias informacionais”, realizado nos dias 26 e 27 de março de 2019.

Com a proposta de CP Pensamento Social no Brasil da SBS objetiva-se, em primeiro lugar, dar continuidade às conquistas cognitivas sucintamente expostas acima com base nas experiências recentes do GT. Em segundo lugar, aprofundar e aperfeiçoar o conhecimento da formação da sociedade brasileira, nas várias dimensões desse processo, bem como dos próprios instrumentos de análise da área de pesquisa. Em terceiro lugar, com base no conhecimento acumulado, promover a abertura de novas frentes de investigação e o enfrentamento consistente de novos desafios teórico-metodológicos que se colocam para a área e para as ciências sociais.

Apoiadores

André Botelho (UFRJ)
Carmen Felgueiras (UFF)
Eliane Veras Soares (UFPE)
Elide Rugai Bastos (Unicamp)
Enio Passiani (UFRGS)
Helena Bomeny (Uerj)
João Marcelo Maia (FGV)
Luiz Carlos Jackson (USP)
Marcos Chor Maio (Fiocruz)
Mariana Chaguri (Unicamp)
Mario Medeiros (Unicamp)
Mauricio Hoelz (UFRRJ)
Nísia Trindade Lima (Fiocruz)
Renan Freitas Pinto (UFAM)
Vera Alves Cepêda (UFSCar)

Comitês de Pesquisa