90 anos de Pierre Bourdieu

Publicado em 6 de novembro de 2020

Por Maria Alice Nogueira
Professora da Faculdade de Educação da UFMG

Neste post, Maria Alice Nogueira apresenta um balanço da trajetória e da obra do sociólogo Pierre Bourdieu.

Falecido em 2002, o sociólogo francês Pierre Bourdieu completaria 90 anos neste ano de 2020. Nascido em 01 de agosto de 1930, em um pequeno vilarejo do sudoeste francês, filho de funcionário subalterno do serviço nacional dos correios e neto de camponeses, ele se tornaria, em fins do século XX, o cientista social mais citado no mundo, ao cabo de um processo improvável de deslocamento no espaço social que o transportaria de um meio social modesto à fração cultural das elites francesas. Essa origem social faria dele o detentor de um “habitus clivado”, produto da contradição
entre “uma alta consagração escolar e uma baixa extração social”, como ele mesmo definiria na obra Esquisse pour une auto-analyse, publicada originalmente em 2004 (Éditions Raisons d’Agir), após sua morte. É justamente esse “habitus clivado” que, segundo alguns especialistas, fornece a mais importante chave de leitura para a compreensão de toda a sua obra (cf. MAUGER, 2005; DORTIER, 2008).

Por ter sofrido a dolorosa experiência de viver “entre dois universos”, bem cedo ele descobriria que, mais do que uma questão de distância social, o que estrutura as relações entre os diferentes grupos sociais é um processo de violência simbólica. E isso fez dele um observador privilegiado e um obstinado analista dos modos e dos mecanismos de dominação social desenvolvidos particularmente por meio dos diversos sistemas simbólicos (a escola, a arte, a ciência, a religião e tantos outros), preocupação central
que atravessa toda sua obra.

Penso ser possível afirmar que sua maior contribuição à Sociologia consistiu na elaboração e refinamento de instrumentos analíticos postos a serviço do conhecimento do mundo social; conhecimento que, para ele, significava a “desnaturalização” desse mundo.

Do ponto de vista operacional, ele nos legou a exortação a um modo de trabalho sociológico que não separa a elaboração conceitual (do objeto de investigação) das ferramentas de incursão no terreno empírico (estatísticas, questionários, entrevistas, observação etnográfica etc.), convencido que era de que o real não fala por si só, sem a intermediação da formalização teórica (conceitos, hipóteses). Modo esse de produção científica que extrai sua validade do exercício da reflexividade crítica que consiste no perpétuo trabalho de reflexão do sociólogo sobre suas próprias práticas de pesquisa, por meio do distanciamento da realidade imediata e da objetivação (auto-análise) de seu modus operandi.

Muito já se falou sobre a herança teórica deixada por Bourdieu na forma da elaboração de instrumentos conceituais fundamentais como os conceitos de habitus, campo, capital cultural, capital social, capital simbólico, os quais, funcionando em conjunto, compõem o arcabouço de sua teoria. Por isso, não gostaria de repeti-lo uma vez mais.

Penso ser mais proveitoso destacar, embora de modo mais subjetivo, alguns aspectos (sem poder ser exaustiva) de seu pensamento que considero que muito fizeram avançar o conhecimento de certos setores do mundo social, como por exemplo:

  • suas análises sobre o universo das classes médias em suas diferentes frações são para mim, até hoje, insuperáveis. Para aqueles que se interessam pelo tema, tentei sumariá-las em artigo publicado no periódico português Educação, Sociedade & Culturas (maio/1997);
  • a noção de “interiorização das chances objetivas” (ou, em outros termos, interiorização da exterioridade) constitui, a meu ver, a hipótese mais convincente para compreendermos como cada indivíduo desenvolve suas aspirações e formula seus projetos: de estudos, de profissão, de investimentos, de procriação etc.;
  • a desmontagem dos mecanismos sociais por meio dos quais os bens culturais legítimos conferem valor a seus portadores, funcionando muitas vezes em oposição aos valores do campo econômico, como por exemplo o “interesse no desinteresse” verificado no campo científico e acadêmico;
  • a análise das condições em que se dá a circulação internacional dos bens simbólicos (das ideias, dos conceitos, das obras) que podem se desfigurar ao viajar de um país a outro, em função das categorias de percepção/apreciação e do campo da produção cultural próprios de cada contexto nacional em que são recebidos, ocasionando, muitas vezes, o surgimento de novas doxas intelectuais.

No que tange à Sociologia brasileira, acredito ser possível afirmar que a teoria bourdieusiana segue sendo intensamente mobilizada pelos cientistas sociais de nosso país. Não possuindo dados sistemáticos mais recentes, remeto-me aos resultados obtidos por Manuel Palacios C. Melo em sua tese de doutorado, defendida no Iuperj e publicada em livro sob o título de Quem explica o Brasil (Editora UFJF, 1999). Nela, o sociólogo examinou um robusto material empírico constituído de teses e dissertações acadêmicas,
artigos científicos e ementas de disciplinas ministradas em programas de pós-graduação no Brasil, na década de 1990, na área das Ciências Sociais. Seu acurado exame bibliométrico demonstrou que Bourdieu figurava como um dos autores mais citados em todo o corpus analisado e, até mesmo, o mais citado, no caso das teses e dissertações defendidas nas três áreas de conhecimento das Ciências Sociais (Antropologia, Sociologia e Ciência Política).

Em suma, por seu pioneirismo na iniciativa de desvendar a dimensão simbólica da dominação social e pela robustez do imponente estoque de pesquisas que nos legou, é lícito afirmar que o empreendimento científico de Pierre Bourdieu não esmaeceu ao longo desses anos.


Referências bibliográficas
DORTIER, Jean-François. Les idées pures n’existent pas. In: Pierre Bourdieu: son oeuvre, son héritage. Auxerre : Éditions Sciences Humaines, 2008.


MAUGER, Gérard. Rencontres avec Pierre Bourdieu. Bellecombe-en-Bauges : Éditions du Croquant, 2005.

Como citar este post

NOGUEIRA, Maria Alice. 90 anos de Pierre Bourdieu, Blog da SBS, [publicado 11.11.2020]. Disponível em: https://www.sbsociologia.com.br/2020/11/06/90-anos-de-pierre-bourdieu/

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NOTA DE PESARA SBS se junta à Universidade Federal do Paraná e comunica com pesar o falecimento do professor Pedro Rodolfo Bodê de Moraes do Setor de Ciências Humanas, Departamento de Ciências Sociais da UFPR, no último sábado, 27 de novembro. Pedro Bodê, muito querido pelos colegas e alunos, concluiu estágio pós-doutoral (IESP-UERJ), doutor em sociologia (IUPERJ), mestre em antropologia social (PPGAS/MN/UFRJ) e graduado em ciências sociais (UFF). Era professor adjunto no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Direito, ambos da Universidade Federal do Paraná. Teve importante participação como coordenador da Comissão Estadual da Verdade do Paraná e membro do Fórum Paranaense da Verdade, Memória e Justiça. Atuou ainda, diretamente, junto à OAB/PR em temas vinculados ao enfrentamento de violência contra a mulher e da criança e adolescente.Com forte contribuição acadêmica e compromisso com a democracia, Pedro Bodê é referência em estudos e atuação na área da segurança pública. Deixa um legado na área de Sociologia e Antropologia, principalmente nos temas sobre controle social, violência, sistema penitenciário, juventude e criminalização.A SBS, junto à comunidade da UFPR, lamenta a morte do professor e presta os mais sinceros sentimentos aos familiares, colegas e amigos. ... See MoreSee Less
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