03/02/2017

FALECIMENTO RICARDO BENZAQUEN DE ARAúJO

Ricardo Benzaquen de Araújo (1952-2017)
 
Ricardo Benzaquen de Araújo faleceu no dia 1o de fevereiro de 2017, no Rio de Janeiro. Além de suas filhas, Alice e Carolina, esposa Carmem, deixa uma legião entristecida de amigos, colegas e ex-alunos, construída ao longo de uma trajetória acadêmica e existencial que bem merece o uso do termo “gloriosa”.
 
Por todos os lugares por onde passou, Ricardo invariavelmente exerceu suas artes de encantamento e fertilização intelectual, sempre a perseguir e sugerir agendas inovadoras, sem descurar da necessária atenção aos clássicos que constituíram o campo das Humanidades. Dotado de erudição e generosidade intelectual incomuns, Ricardo caracterizou-se, ainda, pela singular combinação entre firmeza em suas convicções e urbanidade e delicadeza, na relação com seus pares, no trato de questões de natureza institucional, por vezes bastante árduas. Seu comportamento institucional, neste sentido, é um exemplo para todos nós.
 
Desde 1975 Ricardo Benzaquen tem sido professor do Departamento de História, da PUC/RJ, instituição na qual se graduou em História, em 1974. Em 1980, obteve o título de Mestre em Antropologia Social, pelo Museu Nacional, orientado por Gilberto Velho, com um notável e pioneiro ensaio sobre o futebol brasileiro, intitulado “Os Gênios da Pelota: um estudo do futebol como profissão”, que bem merece ser publicado. Já em seu trabalho de mestrado emergiram características que o acompanharam por toda a vida: o humor – presente na menção aos Irmãos Marx, no título da dissertação -, a cultura futebolística – no tema e na paixão vascaína – e a originalidade de suas sínteses intelectuais.
 
De 1977 a 1987, Ricardo foi pesquisador do CPDOC, integrando a equipe coordenada por Lucia Lippi de Oliveira, voltada à pesquisa sobre pensamento social e político brasileiro. De seu trabalho no CPDOC, Ricardo brindou-nos com um belo ensaio sobre o Integralismo brasileiro: “Totalitarismo e Revolução: O integralismo de Plínio Salgado”, publicado em 1988, pela editora Jorge Zahar, um recorte inovador na análise daquele movimento, revelando sua dimensão especificamente conservadora, mais do que fascista.
Durante muitos anos, Ricardo debruçou-se sobre a obra de Gilberto Freyre, com especial atenção ao livro “Casa Grande e Senzala”. Disto – além de artigos, conferências e inúmeras sugestões de orientação – resultou o seu principal livro, “Guerra e Paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30 (São Paulo: Editora 34, 1994), detentor do Premio Jabuti de melhor ensaio em 1995. O livro fora originalmente elaborado como tese de doutoramento, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional (UFRJ), em 1993, sob orientação de Otávio Velho. Mais do que uma interpretação da obra específica de Gilberto Freyre, o livro abriu perspectivas importantes para o estudo do pensamento social brasileiro. Ricardo, na verdade, foi um dos principais responsáveis pela consolidação deste campo, no âmbito das Ciências Sociais brasileiras. Durante anos seguidos, seus seminários semanais de Pensamento Social Brasileiro, no antigo Iuperj foram seguidos por inúmeros colegas e alunos. Muitas dissertações, teses e artigos foram favorecidos pela experiência desses seminários.
 
De 1987 a 2010, Ricardo Benzaquen foi pesquisador e professor do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, cujas atividades foram encerradas em 2010. Ali, Ricardo obteve, em 2000, sua titulariedade e, ao lado de atividades de docência e pesquisa, ocupou papel importante no plano institucional, como Diretor de Seminários e Publicações, de 1989 a 1991, e como Diretor de Ensino, de 1995 a 1997.
 
Além de professor e pesquisador, Ricardo dedicou parte de seu tempo ao campo da divulgação científica. Exerceu papel importante na criação da Revista de História da Biblioteca Nacional, na qual integrou seu Conselho Editorial constituído por alguns dos maiores historiadores brasileiros, sob a direção de Alberto da Costa e Silva. Foi, ainda, Editor de Ciências Humanas, da Revista “Ciência Hoje”, publicada pelo Instituto Ciência Hoje.
Mais do que o Professor, o que se perde com a partida de Ricardo é a sua singularidade como intelectual, advinda de uma formação diversa, anárquica e rica. Graduado em História e Pós-Graduado em Antropologia, Ricardo dedicou-se militantemente ao ensino e à reflexão sobre História Intelectual, Teoria Sociológica e sobre Pensamento Social Brasileiro. O amálgama que criou acabou por ser único e irreplicável: ao conhecimento invulgar dos textos e autores pertinentes aos campos sobre os quais trabalhou, Ricardo sempre acrescentou temperos pessoais, advindos da literatura, do cinema, da tradição judaica, da observação fina sobre o mundo da vida. Impossível defini-lo por sua inscrição disciplinar: Ricardo foi o resultado de uma curiosidade intelectual omnívora, pela qual nada que sugerisse a presença da inteligência lhe foi estranha. Historiador, Sociólogo, Antropólogo? Todas essas agendas, de algum modo, estavam em Ricardo, mas sua identidade intelectual foi maior do que a soma das partes, e a ele cabia a posse do segredo do amálgama.
Mas, Ricardo não nos deixa apenas o vazio de sua ausência inapelável. Sua presença subsiste nas dezenas de mestres e doutores que formou, na legião de estudantes que tiveram o privilégio de usufruir de suas artes de docência e no patrimônio que cada um de seus amigos acabou por construir e guardar, graças a suas reservas inesgotáveis de carinho, humor e inteligência. Ricardo sobreviverá em cada um de nós.
 
Prof. Dr. Renato Lessa 

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