ABDIAS DO NASCIMENTO

 
Por Mario A. Medeiros da Silva (UNICAMP)
 
 
 
      Nasceu em Franca, São Paulo, em 14 de março de 1914 (filho de José Ferreira do Nascimento e de Georgina Ferreira do Nascimento) e faleceu no Rio de Janeiro, em 23 de maio de 2011. Passa a residir na capital fluminense em 1936 para cursar Economia na Universidade do Distrito Federal (forma-se em 1938, quando a instituição já é denominada Universidade do Brasil). Estudou sociologia no ISEB (1956), foi também teatrólogo, ativista, pintor, deputado federal (1983-1987) e senador da República (1997-1999, suplente de Darcy Ribeiro). Doutor Honoris Causa pela UERJ (1993) e UFBA (2000). Indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2010.
 
      Fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944 e esteve à frente dele até 1968, quando foi forçado a se exilar, em função da ditadura civil-militar, indo inicialmente para os Estados Unidos. Ali se tornou pintor e militante pan-africanista, além de professor na Universidade do Estado de Nova York (EUA) e também da Universidade de Ifé (Nigéria).
 
      Retornou ao Brasil em 1978, participando da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) e também da fundação do PDT, com Leonel Brizola.
 
      Combateu como soldado na Revolução Constitucionalista de 1932 e foi preso em 1937 por protesto contra o Estado Novo. Entre o final dos anos 1930 até o fim da vida, foi um importante intelectual negro, ativista da luta antirracista. Já em 1938 organizou e participou do Congresso Afro-Campineiro, em Campinas. Depois de excursionar pela América do Sul com o grupo de teatro La Santa Hermandad Orquidea, retorna ao Brasil em 1941 e é encarcerado na Penitenciária do Carandiru (SP), acusado por crimes que teria cometido em 1936, ao resistir a agressões racistas. No Carandiru cria o Teatro do Sentenciado, gênese do Teatro Experimental do Negro. Ao sair da prisão, não encontra apoio para a criação de um teatro negro na capital paulista e retorna ao Rio de Janeiro. Com a direção e fundação do TEN, em 1944, colocou o ator negro em cena, nos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro – na época, este sujeito no teatro brasileiro era o ator branco “brochado” (isto é, com o rosto pintado de tinta preta) ou estereotipado em papéis depreciativos. A experiência do TEN levou também à revelação de uma geração importante de atores e intelectuais negros (como Ruth de Souza, Léa Garcia, Haroldo de Oliveira, Ironides Rodrigues) e foi replicada em São Paulo (com Geraldo Campos de Oliveira, Milton Gonçalves, entre outros). Encenaram peças de Eugene O’Neill, Albert Camus, Nelson Rodrigues, Augusto Boal, Rosário Fusco, do próprio Abdias do Nascimento, entre outros, reunidas no livro Drama Para Negros, Prólogo para Brancos (1961) e Teatro Experimental do Negro: testemunhos (1966).
 
     Com a experiência do TEN houve a aproximação com intelectuais brancos e negros, como os citados, além do sociólogo Alberto Guerreiro Ramos. Nesta fase editou o jornal Quilombo, atividade de destaque da imprensa negra carioca. Também a partir do TEN, Abdias organizou o I Congresso do Negro Brasileiro (1950, RJ), encontro entre intelectuais negros e brancos (como Jorge Prado Teixeira, Ironides Rodrigues, Alberto Guerreiro Ramos, Roger Bastide, Luiz de Aguiar Costa Pinto, entre outros), que resultou no livro O Negro Revoltado (1968). A partir do autoexílio nos EUA e dos contatos com intelectuais negros estadunidenses e africanos, a produção intelectual de Nascimento se tornou cada vez mais crítica da dinâmica das relações raciais brasileiras. Isso está expresso em livros como Sitiado em Lagos (1981), O quilombismo (1980), O genocídio do negro brasileiro (1978), entre outros.
 
      Coorganizou a antologia Memórias do Exílio, com Paulo Freire e Nelson Werneck Sodré (1976). Na década de 1980, com o apoio de D. Paulo Evaristo Arns, criou na PUC-SP o Instituto de Pesquisa e Estudos Afro Brasileiros (IPEAFRO, 1981), que foi transferido para o Rio de Janeiro em 1984. Além das obras mencionadas, esteve envolvido com a vida política no PDT, aliado de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Nascimento foi integralista na juventude, foi crítico dessa experiência ao se aproximar da Frente Negra Brasileira e do combate contra discriminação racial no final dos 1930; tornou-se um militante antirracista e pan-africanista, aliando este projeto à experiência concreta do brizolismo nacionalista do PDT. Como senador por este partido editou os seis volumes da revista Thoth: pensamento dos povos africanos e afro-descendentes, com o apoio de seu mandato parlamentar. Foi um ativo defensor, entre os anos 1980 e 90, do reconhecimento da Serra da Barriga e do Memorial a Zumbi no local onde teria existido o Quilombo de Palmares, local onde foram depositadas suas cinzas.
 
Sugestões de leitura:
 
Custódio, Túlio.Construindo o (auto) exílio: trajetória de Abdias do Nascimento nos Estados Unidos, 1968-1981. Dissertação [Mestrado]. São Paulo: FFLCH-USP, 2012.
 
Macedo, Márcio. Abdias Nascimento: a trajetória de um negro revoltado (1914-1968). Dissertação [Mestrado]. São Paulo: FFLCH-USP, 2005.
 
Müller, Ricardo Gaspar (org.). Dyonisios (número especial sobre o Teatro Experimental do Negro). Brasília, DF: MinC/Fundacen, 1988.

 

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