SOCIóLOGAS BRASILEIRAS


Bárbara Luisa Pires, doutoranda em Sociologia – Unicamp
 
Gilda de Mello e Souza nasceu em 1919 na cidade de São Paulo, onde também faleceu em 2005. Ensaísta, crítica de cultura, socióloga e professora de estética, foi integrante de uma das primeiras turmas – e uma das poucas mulheres - da recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. É autora de obras singulares no quadro intelectual brasileiro, marcadas por seu caráter ensaístico e pela abrangência temática: moda, pintura, literatura, cinema, teatro. Em perspectiva crítica, procura analisar os nexos de sentido entre arte e sociedade, com atenção para os condicionantes sociais que ecoam nas obras e trajetórias de seu escrutínio. Enquanto testemunha da mudança provocada pelo ingresso das mulheres na vida universitária, também dedicou parte de suas reflexões à avaliação de sua experiência como mulher intelectual e ao lugar do universo feminino na produção da cultura. 
 
Gilda de Mello e Souza, em solteira Moraes Rocha, era filha de proprietários rurais do interior paulista, passou a infância na Fazenda Santa Isabel em Araraquara/SP. Em 1930, mudou-se com a irmã para São Paulo, com a finalidade de estudar no Colégio Stafford, onde se diplomou no fim de 1934. Ambas foram morar na casa da tia avó, Maria Luisa de Moraes Andrade, mãe de Mário de Andrade. O escritor teve uma influência decisiva em sua formação, tornando-se, posteriormente, um dos temas centrais de suas reflexões. 
Em 1936, cursou o Colégio Universitário Anexo à Universidade de São Paulo, em cuja Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras ingressou em 1937, obtendo o grau de bacharel em Filosofia em 1939.  Em 1940, fez o curso de formação de professores e recebeu o grau de licenciada pela mesma instituição. Na universidade, foi aluna dos professores da “missão francesa”, entre eles, Jean Maugüé, Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide, de quem foi orientanda no doutorado e assistente na cadeira de Sociologia I entre 1943 e 1954. Participou da fundação do Grupo Universitário de Teatro – GUT (1943-1947) e da revista Clima (1941-1944), onde publicou contos e ensaios. No núcleo central da revista estavam, Antonio Candido - com quem se casou em 1943 - Décio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado e Ruy Coelho. De todas as mulheres que participaram da revista, foi a única que deu continuidade à carreira acadêmica. Esteve ligada profissionalmente, desde o fim de sua graduação, à Seção de Ciências Sociais. Em 1950 doutorou-se em Sociologia com a tese A moda no século XIX, publicada no ano seguinte na Revista do Museu Paulista e republicada em 1987 pela Companhia das Letras com o título O espírito das roupas. A convite de João Cruz Costa transferiu-se, em 1954, para o Departamento de Filosofia da USP como responsável pela Cadeira de Estética, da qual foi fundadora, lecionando até se aposentar, em 1972. Atuando na resistência política à ditadura militar, entre 1969 e 1972, foi chefe de Departamento, ocasião em que fundou e dirigiu a revista Discurso, revista científica até hoje em vigência. Em 1999, recebeu o título de professora emérita da FFLCH/USP.
Transitando entre a Sociologia e a Estética, depois da tese de doutorado, publicou mais três livros – O tupi e o Alaúde, Exercícios de leitura, A ideia e o figurado -, além da seleção e organização dos melhores poemas de Mário de Andrade. Esquivando-se de enquadramentos teóricos rígidos e privilegiando o contato direto com as obras que analisa, o ensaísmo praticado por Gilda tenta captar, através de indícios e pequenos fragmentos, as contradições que permeiam as formas artísticas, as experiências de criação e os processos sociais mais amplos que as envolvem. Ao abranger os variados aspectos do sistema cultural brasileiro, questiona, ainda, até onde foi possível aclimatar, reposicionar e dialogar criativamente com tradições estéticas europeias no contexto nacional. 
 
Sugestões para leitura: 
PIRES, Bárbara Luisa. O tecido das contradições e a trama das equivalências: gênero, arte e sociedade no ensaísmo de Gilda de Mello e Souza. Dissertação (Mestrado em Sociologia), Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2019.  
PONTES, Heloisa. A paixão pelas formas: Gilda de Mello e Souza, Novos Estudos Cebrap, n.74, 2006, pp. 87-105.
PONTES, Heloisa. Destinos mistos: os críticos do grupo Clima em São Paulo (1940-1968). São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 
SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século XIX. São Paulo: Companhia das Letras: 1987. 
SOUZA, Gilda de Mello e. Exercícios de leitura. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2009.
 
Daniele Cordeiro Motta (doutora em Ciências Sociais, Unicamp)
 
 
Heleieth Iara Bongiovani Saffioti nasceu em Ibirá, interior do estado de São Paulo, em 1934, e faleceu na cidade de São Paulo em 2010. Se formou em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo no ano de 1960. Dois anos depois foi para Araraquara e lecionou Sociologia nos cursos de Pedagogia e Letras, passando a compor, no ano seguinte, o quadro de professores do recém criado curso de Ciências Sociais da mesma faculdade. Por determinação de seu orientador Florestan Fernandes, foi direto para a Livre Docência, defendida no ano de 1967, com a tese: “A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e realidade”, publicada em 1969 pela editora Quatro Artes, que se tornou um marco dos estudos sobre a condição das mulheres nas Ciências Sociais no Brasil. Após se aposentar lecionou na PUC de SP até 2006.
 
Milene Marques de Matos (mestranda em Sociologia – Unicamp)
 
 
Aparecida Sueli Carneiro nasceu na cidade de São Paulo em 1950. É uma intelectual negra brasileira, militante feminista e antirracista, que está engajada na luta contra o racismo e o  sexismo  brasileiro, desde o final da década de 1970. Sueli Carneiro, nome pelo qual ficou conhecida, é uma filósofa, doutora em Filosofia da Educação, pela Universidade de São Paulo (USP), e fundadora de uma das primeiras organizações autônomas de mulheres negras no Brasil, o Geledés-Instituto da Mulher Negra. A intelectual também se destaca por ter representado as mulheres negras nos primeiros órgãos governamentais, destinados a elaborar políticas públicas para mulheres brasileiras e por contribuir com as primeiras pesquisas acadêmicas que envolveram a temática Mulher, sobretudo, por inserir a problemática das mulheres negras no bojo destes estudos. 
 
 
Ingressou na USP em 1971, para cursar Filosofia e em 1979, participou do segundo concurso da Fundação Carlos Chagas, destinado a financiar pesquisas com o tema Mulher. Foi aprovada na seleção e contemplada com uma bolsa de estudos, com a qual realizou a pesquisa O poder feminino no culto aos Orixás. Trata-se de um estudo sobre filhas de santo em Candomblés, em São Paulo, onde a intelectual analisa as representações da mulher na mitologia africana,  com o objetivo de compreender o sistema mítico que o candomblé possui da condição feminina e como isso reverberava na vida social das mulheres negras, no período pós abolição. 
No início dos anos 1980, Sueli Carneiro começou um mestrado com o Prof. Fernando Mourão, no Centro de Estudos Africanos (CEA) da USP, onde pretendia estudar Filosofia Africana, mais precisamente, trabalhar ideias de intelectuais negros como Paulin Hountondji e V. Y. Mudimbe. No entanto, a falta de conhecimento dos docentes daquela instituição sobre o tema proposto, levaram a jovem estudante a abandonar o curso no processo de qualificação. Mais tarde, em 1984, ela tenta retomar o mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde foi orientada pelo Prof. Octávio Ianni, figura importante para os estudos sobre relações sociais racializadas no Brasil. Nesta ocasião, Carneiro já estava envolvida com a militância em prol das mulheres negras e acabou desistindo de realizar o mestrado. 
  Nos anos seguintes, de  1985 a 1987, a intelectual passou a integrar os primeiros órgãos governamentais destinados para pensar políticas públicas para mulheres brasileiras; o Conselho Estadual da Condição Feminina (CECF) do Estado de São Paulo, criado em 1983; e o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), de 1985. Durante sua atuação no CECF-SP, Carneiro produziu, junto a Thereza Santos, uma pesquisa pioneira sobre o contexto social em que se encontravam as mulheres negras brasileiras. Fazendo o uso de dados estatísticos, a pesquisa desenvolvida demonstra diferenças socioeconômicas e educacionais entre  negros e brancos, mulheres e homens e pela primeira vez, entre as próprias mulheres, tornando-se uma importante referência para compreensão da  situação da mulher negra no país. 
No final dos anos 1990, a filósofa  retornou para a USP para realizar seu mestrado na área de Filosofia da Educação. No processo de qualificação, a banca sugeriu que a pesquisa fosse ampliada para um doutorado e em 2005, ela defendeu sua tese, A construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. Neste estudo, Carneiro discute as relações raciais no Brasil, à luz de conceitos do filósofo Michael Foucault e do sociólogo Boaventura de Souza Santos. Com base nesse arcabouço teórico, ela elabora uma noção de dispositivo de racialidade/biopoder, para demonstrar a existência de um contrato racial que garante a exclusão social dos afro-brasileiros do/ e a partir do sistema educacional. De acordo com a intelectual, o epistemicídio, em conexão com a tecnologia de racialidade/biopoder, determinam ideias de vitalismo e morte, não apenas relacionadas ao aspecto físico, mas, sobretudo, a respeito da produção do pensamento  intelectual de sujeitos de determinada filiação racial.
Em 2003, a filósofa escreveu o ensaio Mulheres em Movimento, publicado na revista Estudos Feministas, no qual fala sobre a necessidade de enegrecer o feminismo. Nesse estudo, importante referência para o feminismo negro brasileiro, Carneiro aponta que quando  raça atravessa as relações de poder organizadas a partir da diferença de gênero, são produzidas formas diferenciadas de opressão para as mulheres negras, quando comparadas às opressões sofridas pelas mulheres brancas. Assim, a articulação entre gênero e raça, produz relações sociais de um tipo específico, que promove, sobretudo, uma experiência social diferenciada daquela que o discurso feminista buscava superar. Ainda neste texto, ela argumenta que gênero deve ser utilizado como uma variável teórica, ou seja, como uma ferramenta de análise social, mas ressalta que ela não deve ser utilizada separada de outros eixos de opressão que se articulam ao gênero, para produzir diferentes formas de desigualdade entre mulheres e homens, bem como entre mulheres.
Sueli Carneiro também se destaca por representar as mulheres negras nos meios de comunicação; no âmbito dos movimentos sociais e na política institucionalizada.  
Durante os anos de 1984 e 1985, a filósofa escreveu  para o jornal Mulherio, periódico criado em 1981, em São Paulo, com o objetivo de servir como um boletim das pesquisas elaboradas pela Fundação Carlos Chagas, mas que acabou tornando-se um referencial para o movimento feminista. No primeiro conselho editorial deste jornal, constam nomes importantes para as Ciências Sociais Brasileiras, como Lélia Gonzalez; Heleieth Saffioti; Eva Blay; Ruth Cardoso; Mariza Corrêa; Elizabeth Souza Lobo e Carmem Barroso. De 2002 a 2009, Sueli Carneiro foi colunista do jornal Correio Braziliense. Na sessão Opinião, ela  debatia diferentes aspectos e problemas da sociedade brasileira, a partir da perspectiva da mulher negra. Parte dos artigos escritos durante esse período, foram organizados em uma coletânea e publicados no livro Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil. 
Em 1988, a filósofa ajudou a fundar o Geledés- Instituto da Mulher Negra, uma das primeiras organização autônoma de mulheres negras do Brasil e que permanece até os dias atuais.  A instituição tem sido um dos principais centros de referência para a população afro-brasileira e representou as mulheres negras em diversas Conferências Mundiais da Organização das Nações Unidas (ONU), como na V Conferência Mundial de População e Desenvolvimento, ocorrida na cidade do Cairo, no Egito, em 1994; na IV Conferência da Mulher, em Mar del Plata, na Argentina, em 1994; e na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Beijing, na China, no ano de 1995.
Sueli Carneiro também fez parte da comissão executiva da Marcha Zumbi dos Palmares pela Cidadania e a Vida, ocorrida em Brasília, em 1995. Na ocasião, a comissão  foi recebida pelo então presidente, Fernando Henrique Cardoso, e o encontro resultou na criação do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), responsável para pensar políticas públicas direcionadas a população negra. No governo do presidente Lula, as propostas ganharam uma nova dimensão, com a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Em 5 de março de 2010, Carneiro escreveu um texto em defesa das cotas raciais em universidades brasileiras, que foi apresentado na Audiência Pública convocada pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, sobre a constitucionalidade das cotas para negros no ensino superior. 
 
Sugestões de Leitura:
 
BORGES, Rosane da Silva. Sueli Carneiro. Retratos do Brasil Negro. Coordenado por Vera Lúcia Benedito.São Paulo: Selo Negro, 2009.
 
CARNEIRO, Sueli. Mulheres em Movimento. Estudos Avançados 17 (49) 2003.
 
 _____.A construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. Tese de doutorado em Filosofia e Educação. Faculdade de Educação. USP. São Paulo.2005.
 
_____. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo, SP: Selo Negro, 2011. 190 p.
 
_____. Escritos de uma vida. Belo Horizonte (MG): Letramento, 2018. 


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