28/02/2019

FALECEU ERIK OLIN WRIGHT

Erik Olin Wright (1947-2019): Os Frutos do Marxismo Sociológico
 
O renomado sociólogo Erik Olin Wright, cuja obra se vinculou à tradição marxista em construção, faleceu no dia 23 de janeiro, aos 71 anos. Tendo obtido o Ph.D. em sociologia na Universidade de Berkeley, em 1976, desenvolveu toda a sua carreira no Departamento de Sociologia da Universidade de Wisconsin-Madison. As principais realizações da sua obra se concentraram especialmente na temática das classes sociais e das alternativas de mudanças da sociedade existente. 
Desde os primeiros trabalhos a sua obra foi marcada pela preocupação em elaborar teoricamente e fundamentar empiricamente categorias recebidas da tradição marxista. A primeira contribuição teórica marcante veio à luz no artigo publicado em 1976 na New Left Review, “Class Boundaries in Advanced Capitalist Society,” reunido depois no livro, Class, Crisis and the State (1978), traduzido em português (1981), em que fundamenta a noção de “localizações contraditórias dentro das relações de classe”, visando dar conta da complexidade das fronteiras de classe na sociedade capitalista contemporânea. A publicação em 1979 do livro “Class Structure and Income Determination”, baseado na sua tese de doutoramento, mostrou os primeiros frutos de se testar em levantamentos de dados proposições ou expectativas teóricas derivadas do marxismo.
Erik Wright idealizou e coordenou um grande projeto comparativo de análise de classes, a partir do final dos anos 70, que chegou a envolver 16 países no curso de quinze anos. Além das publicações dos grupos em cada país e de diversos artigos de sua autoria, no livro “Class Counts: Comparative Studies in Class Analysis” (1997) apresentou uma síntese dos resultados para um conjunto de países e um balanço das confirmações, surpresas e reconstruções teóricas produzidas.
A partir de 1981 se associou a um grupo de intelectuais de destaque em diversas áreas das ciências sociais que se tornou conhecido na década como representantes do “marxismo analítico”. Preocupações com os fundamentos dos conceitos marxistas formavam um terreno comum de interesse do grupo. Neste período escreveu um dos seus principais livros, “Classes” (1985), que projetou internacionalmente o seu nome como um teórico renovador da tradição marxista de análise de classes. O trabalho recoloca o conceito de classe no processo de exploração, porém buscando retrabalhar a noção através do nexo com a desigualdade de ativos. A recepção das ideias formuladas suscitou a organização do livro “The Debate on Classes” (1989), cujo capitulo final, “Repensando, uma vez mais, o conceito de estrutura de classes”, agrega reformulações, novas complexidades e refinamentos. No livro “Class Counts” consagra a noção de exploração de classe em termos da combinação dos princípios de interdependência inversa de bem-estar, exclusão e apropriação.
Desde a sua criação em 1984, dirigiu o A. E. Havens Center for Social Justice (renomeado após a sua morte de Havens-Wright Center) na Universidade de Wisconsin-Madison que promoveu seguidamente a reflexão crítica e a discussão de ideias progressistas dentro da academia, bem como entre ela e a sociedade em geral.
Deu início em 1991 ao projeto “Utopias Reais”, visando explorar uma ampla gama de propostas e modelos para mudanças sociais progressistas e radicais. O projeto consistiu numa série de conferências cujos resultados foram publicados pela editora Verso (Londres). Após seis seminários publicados, Erik Wright lançou em 2010 o livro “Envisioning Real Utopias”, em que atualiza um diagnóstico e crítica do capitalismo, situa as alternativas ao capitalismo e pensa as estratégias de transformação social. No período de 2011-2012 assume a presidência da Associação Sociológica Americana e o seu programa presidencial girou em torno da temática “Transformando o Capitalismo através das Utopias Reais”. De acordo com o testemunho de Michael Burawoy, ex-presidente da ISA, ao New York Times, as suas ideias sobre Utopias Reais “capturaram a imaginação de audiências, intelectuais e ativistas em todo o mundo, fazendo dele um dos mais importantes cientistas sociais críticos de nossa época”.
Publicações e mesmo novas elaborações sobre a temática de classes sociais continuaram na sua agenda. No livro “Approaches to Class Analysis” (2005), traduzido para o português (2018), além de acolher as principais abordagens contemporâneas sobre a temática, explicita o sofisticado vocabulário conceitual da sua abordagem neomarxista. No artigo Understanding Class (2009) propõe uma abordagem analítica integrada à análise de classes, articulando as contribuições da tradição marxista, da weberiana e as de estratificação social, considerando que estas focalizam distintos processos causais em funcionamento nas sociedades capitalistas. O livro Understanding Class (2015), além de reunir o artigo de 2009, faz uma avaliação crítica de outros modelos e de ideias sobre classe no Século XXI.
Erik Wright sempre dedicou uma atenção especial ao ensino na graduação e pós-graduação e sua relação com os estudantes. Segundo as suas próprias palavras, “O estudo continua sendo uma paixão, mas ensinar é uma alegria”. Dos materiais preparados para um curso na graduação surgiu o livro “American Society: How it Really Works” (2010). Um curso principal sobre “Class, State and Ideology: an introduction to Marxist Social Science”, seguidamente aperfeiçoado, contribui para a formação de várias gerações de sociólogos.
Tendo publicado quinze livros, seu último livro, terminado já sob o pesado fardo de uma leucemia aguda, trata de “Como ser um Anticapitalista no Século XXI” (2019, no prelo). No prefácio esboçado ele ainda projetava escrever uma Parte 2, a depender da evolução da doença, mas a morte concluiu forçosamente a sua obra emancipatória.
 
José Alcides Figueiredo Santos, Professor Titular da UFJF


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