10/12/2018

NOTA DE FALECIMENTO DA INESTIMVEL PROFESSORA MARIA ISAURA PEREIRA DE QUEIROZ

A Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) lamenta o falecimento da Professora Maria Isaura Pereira de Queiroz ocorrida no dia 29 de novembro de 2018. Ao longo de sua existência dedicou-se com brilhantismo à carreira acadêmica e a pesquisa na área das ciências sócias, especialmente no campo da sociologia.
Ingressou no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em 1946, onde realizou o Mestrado em Sociologia, Antropologia e Política pela Universidade de São Paulo, na década de 1950. Obteve o Doutorado na  École Pratique Des Hautes Études, VI Section, em 1959, com bolsa do governo francês.
Ingressou na carreira acadêmica como auxiliar de ensino na Cadeira de Sociologia I, da USP, na qual trabalhou no período de 1950 a 1955. Ao obter a equivalência do diploma de Doutorado francês em 1960, passou para a categoria de Professora-Doutora na Faculdade Filosofia, Ciências e Letras. Foi elevada a professora adjunta em 1978, lecionando até 1982, quando se aposentou.
Atuou como docente em diversas instituições no exterior, tais como, na École des Hautes Études, nos anos de 1963 e 1964, no Institut des Hautes Études d`Amérique LatineUniversidade de Paris, de 1961 a 1970. Lecionou ainda na Université Laval, em Québec, no Canadá, no 2° semestre de 1964 e naa Université des Mutants, de Dakar, no Senegal, no final da década de 1970.
 Suas obras abrangeram diversos campos temáticos, entre os quais: movimentos religiosos e messiânicos, mandonismo na política, estudos rurais, com análise do campesinato brasileiro a partir da definição de grupos rústicos; estudos sobre a cultura brasileira, com destaque para as histórias de vida, relações de gênero e o carnaval.
Entre suas obras, destacam-se : A Guerra Santa no Brasil: o movimento messiânico no Contestado (1957), O messianismo no Brasil e no Mundo (1965), Réforme et Révolution dans les société traditionnelles (1968), Os Cangaceiros : les bandits d'honneur brésiliens (1968), Images messianiques du Brésil (1972), O campesinato brasileiro (1973), O mandonismo local na vida política brasileira (1969), Cultura, sociedade rural e sociedade urbana no Brasil (1978), Carnaval brasileiro: o vivido e o mito (1992). Vários de seus trabalhos foram traduzidos para o francêsitaliano e espanhol.
A pedido da SBS a Professora Evay Blay da USP que acompanhou a trajetória acadêmica da Professora Maria Isaura Pereira de Queiroz, escreveu um breve texto de cunho pessoal que é reproduzido abaixo:
 
Minha querida amiga Maria Isaura Pereira de Queiroz
 
      Li várias matérias sobre a minha querida amiga Maria Isaura Pereira de Queiroz. Todas mostrando sua enorme competência intelectual. Decidi, assim, escrever um texto pessoal, contando um pouco sobre essa mulher que conseguiu ser ao mesmo tempo amiga, mestra, professora, socióloga, profissional e uma pessoa muito alegre.
      Minha relação com Maria Isaura vem do tempo em que eu era estudante e ela docente na cadeira de Sociologia II. O professor Fernando de Azevedo estava em vésperas de se aposentar, mas ainda regia a cátedra de sociologia. Vivíamos enormes transformações nas carreiras acadêmicas – dimensão que só percebi décadas depois, pois Maria Isaura nunca mencionou os conflitos que viviam. Foi assim que ela me ensinou o que era respeito pelos colegas docentes.
      Muito atenta, ela acompanhava de perto as aulas e as/os estudantes. Percebia meus interesses pelas pesquisas das quais eu participava. O curso de ciências sociais oferecia poucas oportunidades para fazer pesquisa de campo e Maria Isaura resolveu ampliar as oportunidades criando o Centro de Estudos Rurais e Urbanos. Creio que isso ocorreu em 1962 ou 1963 quando ela veio à minha casa (dos meus pais na verdade) com seu irmão José para redigirmos os estatutos do CERU. Ela não usava seu prestígio ou status, mas veio me encontrar para assinarmos juntas o documento de fundação. Assim, fui aprendendo na prática, a democracia acadêmica, gesto que perdurou por toda a vida.
     Maria Isaura não poupou esforços para conseguir verba para levar alunas e alunos para fazer pesquisa em zonas rurais, em pequenas cidades onde houvesse uma festa popular, religiosa, ou para recuperar histórias de populações ignoradas por uma sociedade que rapidamente se urbanizava e industrializava. A liberdade de pesquisa era total. Os projetos e o acompanhamento eram feitos em nossas reuniões no Departamento de Ciências Sociais.
    Nestas experiências, foi ensinando a valorizar a fala dos entrevistados, as histórias de vida, a literatura brasileira, mostrando na prática como se faz a pesquisa qualitativa, sem desprezar a quantitativa. De certo modo, ela ia contra o modismo da época que desqualificava a pesquisa que não estivesse expressa em tabelas estatísticas.
     Maria Isaura nos jogava aos leões: o CERU foi convidado a dar um curso no instituto Goeldi, no Pará, e lá fomos nós (eu e Lia Fukui, recém-contratadas pela USP) dar aulas e ensinar os estudantes a fazer pesquisa. Ensinávamos e aprendíamos ao mesmo tempo. Fomos convidados a dar um curso na Universidade Federal da Bahia (nessa fui com o saudoso professor Lisias) e enfrentamos o desafio. Maria Isaura confiava em nós, sabia que voltaríamos mais fortes.
      Quando publiquei na Internet uma nota sobre o seu falecimento, recebi centenas de e-mails de várias partes do Brasil e de diferentes universidades, escolas públicas, de pesquisadores e pesquisadoras, pessoas que ela marcara através de sua obra. Foi emocionante ler em cada mensagem o que tinham aprendido com Maria Isaura, seja em suas aulas, nos livros, nos artigos. Eram antropólogos/as falando das guerras santas do contestado, historiadores/as lembrando do messianismo no Brasil e no mundo ou “o significado da dança de São Gonçalo num município baiano”.
      Professores/as que tinham compreendido o papel da literatura para dar sentido a suas aulas de sociologia. Um sem número de pessoas agradecidas pelo que aprenderam com ela diretamente nos cursos ou através da bibliografia.
            Que falta ela nos faz para explicar o momento político-religioso que vivemos atualmente.
            Maria Isaura deu aulas em muitos lugares - Canadá, França, Senegal, Bélgica - onde deixou seu legado como socióloga e pesquisadora. Pesquisou e escreveu sobre movimentos religiosos, messiânicos, o mundo rural, o cangaço, o mandonismo político, sobre cultura brasileira. Seu último trabalho, publicado na França foi sobre o Carnaval!
            Onde estiver, ela ficará feliz com o conteúdo das mensagens, um agradecimento que só uma verdadeira mestra pode receber.
 
 


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